Gentes e lugares com história
(Lendas que perduram)
Ao reler o livro de Stefan Zweig, Os Grandes Momentos da
Humanidade, relembrei como nasceu a cidade de São Francisco, na América do
Norte. Nesta obra, o escritor relata que, em 1838, naquele lugar pouco povoado,
habitava uma Ordem de Franciscanos (com base na qual foi dado aquele nome) e
alguns pescadores.
Naquela época, assim nos afirma o escritor, toda a gente
tinha o sonho de partir em busca dum futuro melhor, e, na Europa, dava-se terra
a quem a quisesse trabalhar. João Augusto Suter, residente perto de Basileia,
do outro lado do Oceano, era um homem a quem a vida não sorria. Tendo ouvido
falar nesse Novo Mundo, resolveu seguir a sorte desses desesperados que
deixavam as suas terras e desembarcou na Califórnia. Ao tomar conhecimento do
lugar de pescadores, em
São Francisco , resolveu erguer uma grande herdade e
cultivá-la, depois de ter obtido, junto das autoridades da Califórnia, a
concessão daqueles terrenos durante dez anos. Aí, Suter criou gado,
rentabilizou os terrenos e chegou mesmo a dizer que era o homem mais rico do
mundo. Cinco anos volvidos desde que começou a sua empreitada, foi abordado por
um homem da sua confiança que lhe mostrou umas pedras de cor amarela que se
tornaram visíveis numa construção que estava a ser feita. Suter concluiu que se
tratava de ouro, pedindo, por isso, o máximo sigilo ao seu empregado, que não
foi capaz de o manter, contando o episódio, unicamente, à sua mulher. Quando,
no dia seguinte, Suter viu as suas terras, deparou-se com uma destruição total
de todo o seu trabalho, em virtude de uma louca corrida ao ouro. Assim, o homem
mais rico do mundo, como ele se denominava, tornou-se no homem mais pobre.
Andou anos pelos tribunais, queixando-se de ter sido
espoliado dos seus bens, e sempre que o lamentavam, afirmava: “É a vida, e cada
terra e cada homem têm a sua história ou sua lenda”. Anos mais tarde, os
tribunais acabaram por dar razão à sua queixa. Quando descia as escadas do
tribunal da Califórnia, foi vítima de um ataque cardíaco e ali faleceu.
Relembrando este
facto que deu origem ao nascimento da grande cidade de São Francisco, na
América, se recorda a frase de que qualquer lugar tem uma história. E, de
facto, assim é.
Em 1930, veio viver para uma propriedade situada em Leça do
Balio, chamada Quinta das Camélias, o embaixador inglês, à data, que tratava
dos negócios da Inglaterra no Porto. Consigo, trazia a sua filha, Elaine
Sanceau, a quem o povo chamava Miss Sanceau. Nascida a 25 de Julho de 1826,
faleceu com 82 anos. Excepto por ocasião da visita que fazia à irmã, em
Matosinhos, Elaine Sanceau não abandonava a sua adorável Quinta, e lá se fez
uma grande escritora.
Apaixonada pela História de Portugal, escreveu cerca de
doze livros, no âmbito dos seus estudos sobre os descobrimentos portugueses. É
autora, entre outras, das seguintes obras: D. Henrique, o Navegador, Afonso de
Albuquerque, D. João de Castro, A Viagem de Vasco da Gama, D. João II, Capitães
do Brasil. E sempre que alguém lhe perguntava como foi viver para aquele lugar,
ela respondia que estava numa terra que, como todas, respirava história. À
esquerda tinha a Quinta do Alão com seus belos jardins, atribuídos ao
arquitecto que desenhou os jardins do Palácio de Cristal. Do outro lado, tinha
o imponente Mosteiro. Um pouco mais acima, a Quinta do Chantre, obra atribuída
ao grande arquitecto Nasoni. “Como vêm”, dizia, “a História está em qualquer
lado”.
Do rei português D. João II, esta senhora inglesa disse: “A
sua passagem pelo trono, embora relativamente breve, teve importância
transcendente na história do mundo. O reinado de D. João corrigiu os erros que
vinham de trás e preparou tudo para a futura era de glória”.
Era assim a escrita de Miss Sanceau, repleta de pormenores
que, para muitos, poderiam ser secundários, mas que a escritora destacava como
ninguém. Partiu da sua quinta para a derradeira viagem – o cemitério da Igreja
Anglicana, no Porto.
Um poema de Castro Reis, homenageando a escritora, diz muito
mais do que atrás ficou dito, e simboliza a minha homenagem a Elaine Sanceau...
Excerto de "Lendas do leito do rio Leça",
Custóias 23 de Abril de 2011
Custóias 23 de Abril de 2011
José Mendonça

